24/06/2008

Conto do assombro final

Os dois evitavam trocar olhares, palavras, sequer tocavam as taças de vinho. O bar continuava animado, a banda parara de tocar a poucos minutos, o burburinho era ensurdecedor, mas o silêncio entre eles era quase palpável. Gargalhadas, arrastar de cadeiras, o prato da bateria que caiu, mas o som do silêncio era ainda maior.
Contrariando as aparências, fazia tempo que Ela não se sentia tão bem ao lado dEle. Sem precisar prestar atenção no que dizia, ou tecer opiniões às quais ele não daria a menor importância, sequer precisava ficar de mãos dadas.
A música ambiente cobriu qualquer espaço que ainda não havia sido tomado.
Eu só quero estar só
Esse silêncio me faz tão bem
E a distância também
Não queria partir
Mas não me resta nada a dividir
Ainda bem que cada um em sua estrada anda só
Talvez perceba que tem que levantar e viver
Por que todos acabam sós
Sei que eu preciso esperar
Meias medidas virão
Sutilmente ou não
E bem longe daqui
Não vou agradar ninguém além de mim
Ela sentia vontade de rir. Tinha vontade de gargalhar, sentia-se aliviada pelo semi-desabafo. Aquelas palavras estavam engasgadas há tanto tempo que mal podia lembrar de um dia em que não quis proferi-las.
Quando já era quase impossível conter o riso, Sabrina sentou-se a seu lado, um pouco bêbada e sem limites.
"Anima aí gente, a festa ta só começando e vocês dois com cara de bunda!"
Dois? Ah, sim, Ele estava na mesa.
As duas engataram uma animada conversa, falavam até sobre partes docorpo dEle, que a cada segundo ficava mais intrigado com a cena.
"Elas mal se olhavam, agora estão amigas assim?" pensava, sufocado pela lembrança do último encontro que tiveram, quando descobriu bissexualidade de sua ex e o interesse por sua esposa. Sabrina tocava as pernas e os ombros dEla durante a conversa, dando aulas de como trepar no banco da frente de um carro. Ela, interessada, morria de rir com os detalhes sórdidos que a nova amiga incluía na conversa.
"Será que rolou alguma coisa entre as duas e eu não to sabendo?" apavorava-se com a possibilidade de perder sua mulher pra outra mulher.
Ele bebia sem parar. A terceira garrafa de vinho estava no fim e ainda não acreditava no que via. As duas agora conversavam aos sussuros, ao pé do ouvido, e riam incontidamente.Ele pediu outra garrafa de vinho, que foi trazida por André.
"Ufa", pensou, "finalmente alguém pra conversar comigo".
Ledo engano.
André sentou-se entre as duas mulheres, as gargalhadas aumentavam assim como a intimidade entre os três. Percebendo o estado etílico dEle, sugeriu que todos fosse à sua casa, logo ao lado do bar, o que foi aceito de pronto, sem que Ele sequer fosse consultado por Ela.
Ele não sabe ao certo como tudo se deu ou o que aconteceu exatamente,mas acordou sozinho na sala. À sua volta, peças de roupa que não reconhecia e, novamente, o silêncio.

02/06/2008

Conto do Começo do Fim

A rotina já é tamanha que ela acorda mal humorada às sextas-feiras. Sabe que vai sair da cama, preparar o café da manhã, tomar banho, ficar semipronta pra ir trabalhar, lavar a louça do café – ele nunca ajuda – e ir pro trabalho. Às 6 da tarde Ele vai passar para que voltem juntos para casa, mas antes vão passar no mesmo barzinho de toda sexta-feira, onde os amigos tocam. Sempre o mesmo itinerário, os mesmos rostos, os mesmos assuntos, a mesma mesa, o mesmo repertório. Sempre a mesma solidão naquela maldita mesa cheia de gente com quem ela não se identifica, com conversas que não lhe interessam, as mesmas piadas machistas. Hoje não foi diferente. Ela acordou já tremendamente mal humorada, com dor de cabeça e os olhos vermelhos. Chorou muito após a milésima discussão por causa das ligações da Sabrina, pelos vários encontros inesperados dEla com o André. Resolveu que tentaria fazer aquele dia um pouco diferente.
- Amor, quem sabe hoje a gente toma café da manhã em uma casa de chá?
- Tá, pode ser. Com mais tempo para se arrumar e sabendo que não teria reuniões com clientes na agência, caprichou no visual: saia jeans mais curta que o de costume, camisa branca, jaquetinha de couro e botas. Salto alto, há meses ela não trabalhava de salto!
- Nossa, que linda! Algum cliente especial hoje?
- Sim, eu mesma. Aliás, nós dois.
Mentira. Ela nem lembrou da existência dEle, o que vinha se tornando hábito. Ele já não participava de seus planos.
O café foi deprimente. Chegaram, sentaram-se, comeram e foram embora, sem trocar sequer duas palavras além de "me passa o mel". Na verdade há tempos eles já não conversavam, não tinham um assunto de interesse mútuo. O restante do dia foi comum apesar dos olhares dos colegas de trabalho dela, admirados com a repentina mudança. Até seu chefe, sempre tão reservado, reparou no brilho em seu olhar.
- Menina, se você não fosse casada, eu apostaria que está apaixonada.

Apaixonada? Céus! Como Ela não havia percebido? Sempre tão perspicaz, tão sensível, não percebeu que estava apaixonada? Que outra explicação teria para a tarde que passou com André no chão da sala? Qual outro motivo explicaria seu interesse pelo próprio marido? Olhou-se no espelho e viu uma mulher com vontade de viver, muito diferente daquela criatura que apenas existia. Retocou a maquiagem e desceu para encontrar-se com Ele.
- E aí, direto pra casa?
- De forma alguma! Você está linda, merece uma noite diferente.
Preferia que ele fosse mais frio. Esses lapsos de atenção a deixam desarmada.
Quando deu por si, estavam no mesmo bar de sempre, a banda começando com a mesma música de sempre, sentaram-se na mesa à frente do palco. Como sempre. Ele rapidamente colou os olhos no palco e assim ficou,
provavelmente ficará assim a noite toda.
Tão fácil perceber
Que a sorte escolheu vocêE
você cego, nem nota
Quando tudo ainda é nada
Quando o dia é madrugada
Você gastou sua cota...

Ela estranhou algo na música, aparentemente o vocalista não errou a letra. Olhou para o palco e...André? Não se viam desde aquela tarde de domingo, ela sentiu o rubor lhe subindo à face. André cantava olhando para Ele...
Mas quando sempre
É sempre nunca
Quando ao lado ainda
É muito mais longe
Que qualquer lugar...
Se a sorte lhe sorriu
Porque não sorrir de volta
Você nunca olha a sua volta
Não quero estar sendo mal
Moralista ou banal
Aqui está o que me afligia...

Parece que a música foi escolhida a dedo para deixá-la novamente deprimida. Retrata sua total entrega a Ele, que retribui com... nada.
Um dia ela já vai
Achar o cara que lhe queira
Como você não quis fazer
Sim, eu sei que ela só vai
Achar alguém prá vida inteira
Como você não quis...
"Essa deveria ser sua opção? Acabar com essa farsa que virou seu casamento? Deixar seu marido livre pra voltar com a Sabrina? Ficar livre pra viver uma nova história, pra viver outros momentos quentescom o André, pra viver?

Na mesa ao lado várias moças mandavam bilhetinhos para André, que liae respondia com discretos sorrisos, às vezes aparentando vergonha, àsvezes aparentando interesse.
"Bando de galinhas", pensou e, logo em seguida, riu de si mesma.Estava com ciúmes!

- Esse André é engraçado, tá de novo querendo tudo que é meu.- Quê? (Ficou apavorada, será que ele sabia?)
- Agora tá querendo comprar meu baixo. Como se ele soubesse tocaralguma coisa! Foi só eu comentar com esse cara que eu ia montar outrabanda e ele saiu correndo pra ser vocalista da banda aqui do bar. Só falta agora querer comprar meu carro e cantar minha mulher, né amor?
- M-m-mas você não tinha dito que ia chamar o André pra cantar na tua banda?
- Falei sim, mas não quero mais. Ele tá se enfiando muito na nossavida, o tempo todo te convidando pra almoçar.
- Amor, a gente trabalha na mesma rua e só tem um restaurante que preste, é meio óbvio que nos encontremos!
- Se quisesse você evitava sim, podeira tranquilamente almoçar em casa.
- Ah claro, perder meu horário de almoço todo pra fazer almoço e limpar cozinha, tem graça...
- Eu já falei que você não precisa traballhar, o meu salário é o suficiente pra nos manter.
- Como é? Tá querendo dizer que eu seria mais útil como empregada?
- Eu fui criado pra ser um provedor, não pra ser seu colega de quarto.
- E eu fui criada pra ser independente, não pra ser empregadadoméstica e escrava sexual.
- Não se faz de vítima, eu sempre disse que preferia que você ficasse em casa!
- Baixa o tom de voz, a gente tá num lugar público.
- Não tô nem aí, todo mundo aqui sabe que você é minha!
- Tua o caralho, eu sou minha. Se ainda tô contigo é porque eu ainda quero.
- Ainda quer? Como assim?-
Quer dizer que uma hora eu vou perceber que fico melhor sozinha.
- Essa não é uma boa hora pra brincadeiras.
- E quem disse que eu tô brincando?

E o silêncio voltou a imperar na mesa.

21/05/2008

Ado aado o sonho ta acabado

- Bomxibomxibombombom, Julieta! Bomxibomxibombombom, Julieta!
- Sai daqui, gordo desnecessário!! Tô me maquiando e tu me atrapalha,vai ver se eu tô na esquina lá em Passo Fundo, seu merda superdesenvolvido!
Se isso é música que se cante... Credo. Vai saber o que a mãe e o pai do PA tavam escutando quando fizeram ele? Devia ser Gera Samba. Será por isso que ele é um bundinha, aprendiz de bundão? Azar o dele, pelo menos meu pai curte música erudita. Tá, ele também é um pé no saco, mas pelo menos é culto e instigante. Cris, abstrai esse papo de família, hoje é o teu dia, a formatura vai ser tudibão e tu emagreceuos 500 gramas que te impediam de usar o top tomara-que-caia de paetês!
- Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia! Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia!
Afffff... fiquei com essa tranqueira na cabeça. Azar, tô feliz! Daqui a pouco a Lidy passa aqui pra me pegar, depois é só alegria,xiriguidum!
- Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia! Dumdumdumxiriguidum, hoje é o dia!

- Lidy, que loucurama, só tem gato nessa formatura! Que curso é mesmo?
- Astrologia, Física Quântica e Medicina Alternativa, eles se juntaram se não seriam poucos convidados...
- Se eu soubesse que esses cursos eram tão bem freqüentados, eu não teria feito vestiba pra Jornalismo! Aliás, isso ia me poupar de ouvir muitas piadas sem graça...
- Cris, sua bocó, 90% dos gatos dessa festa são bibas, os outros 10%ainda não se decidiram se são álcool ou gasolina...
- Ui! Medo!! Será que eu consigo trazer algum indeciso pra luz?-
Ué, tenta, tu tá linda!
- Tá, vou ligar o radar e vamos ver no que dou, digo, dá...
Hmmm... Esse tá de sapato roxo, certo que é biba. Calça xadrez...não. óculos fundo double de garrafa, tô fora! Cabelo com luzes, fora também. Aquele ali parece que fez a barba com cera quente, credo! Uma guria com o vestido igual ao da mãe... hahahahah na mãe fica melhor! Aquele ali tá dançando Kung Foo Fighting, também deve ser biba... Tá ficando difícil!
- Lidy, olha que gracinha aquele ali de preto, cabelo meio arrepiadinho, com um copo de uísque na mão, ali encostado na parede,tá vendo?
- Criiiiiiiiiis, eu já vi essa diliça na facul!! Ele veio de outra cidade, acho que de São Paulo. Tá no quinto semestre de economia, a Cami tá de olho nele.
- Azar, detesto a Cami, vou furar a fila! Ele parece bem desnorteado, teoricamente não é indeciso. Conhece algum daqueles nerds do lado dele?
- Conheço o meu primo, o Davaldísio, que tá de camisa xadrez vermelha, o de óculos.
- Davaoquê? Fala sério, Lidy...
- Qualé, Julieta Cristina!
- Tá, parei, Lidisleinny...
Respira fundo, Cris. Não é pra parecer atirada, nem quando a gente tá se atirando!

- Oi Vadinho, oi meninos! Gostando da festa?
- Oi Cris. Até que enfim alguém que não me chama pelo nome inteiro...
- Eu posso dizer o mesmo.Xiriguidum, até a voz dele é interessante! Mas pela frase, o nome dele deve ser uma derrota também. Mas quem sou eu pra reclamar?
- Oi, acho que ainda não nos conhecemos, sou a Cris, do terceiro semestre de jornalismo, muito prazer.
Grande menina, baita profissional!
- Oi Cris, meus amigos me chamam de Focé, acabo de me transferir de São Paulo pra cá, estudo Economia.
- Interessante, meu pai se formou em Economia.
- Ah é? E ele exerce a profissão?
- Na verdade não, depois de se formar ele estudou Filosofia e passa avida pensando e tocando violino.
- Nossa, que coincidência, aconteceu exatamente a mesma coisa com o meu pai!

Momentos de silêncio, daria pra ouvir o cricrinar de um grilo, até a música teve uma pausa súbita. Começa a tocar a Dança do Quadrado. Cris, muito desconfiada:
- Focé, esse é o teu apelido, né?
Focé, aparentemente muito desconfiado:
- Sim... Cris, né?
- É. Meu nome é meio esquisito, não tanto quanto Davaldísio, mas meu pai tem uma certa fixação por Shakespeare, meio que se empolgou quando foi me registrar. Aliás, meu nome foi a causa da separação dele com aminha mãe.
- Não acredito. Tu é a Julieta Cristina, minha irmã?
- Adolfo Célio, o que começa os emails com "não sou dado a redigirlongas missivas"? É pra rir ou pra chorar?
- Deve ser pra rir, a única menina que me interessou na festa é minha irmã, tem coisas que só acontecem comigo mesmo!
- Não mano, isso é de família! Vamos dançar?
- Eu não sei dançar funk...
- Sem problemas, minha amiga Antônia me ensinou a dançar essa lá na facul. É assim ó: ado aado, cada um no seu quadrado...

13/05/2008

Um brinde às amigas

- Juju, eu ganhei uma garrafa de cachaça de pitanga, tem um gosto maravilhoso. Me deu um ânimo que estou com vontade de fazer uma janta para bebermos.
- Bebermos? Mãe, onde eu entro nessa história?
- Convidando nossas amigas para virem aqui em casa.
- Minhas amigas, você quer dizer.
- Nossas.
- Mãe, elas são minhas amigas. M-I-N-H-A-S. Não é porque você escuta atrás da porta pra dar conselhos furados, que elas te consideram amiga.
- Elas gostam de saber minha opinião.
- Elas fingem que gostam.
- Elas sempre me ouvem.
- Pra fazer o contrário do que você diz.
- Convida elas, assim saberemos.
- Ta.

- Manhêêêêêêê, o que são essas bolinhas vermelhas no fundo dessa garrafa?
- É filhote de abóbora, bocaberta, não mexe nisso, coisa.
- Mãe, olha a Julieta me xingando.
- Parem vocês dois. Juju, vai ligar ‘pras’ nossas amigas e Paulo Afonso, me devolve isso aqui que não é pro teu bico.
- O que são mamãe?
- Pitangas.
- Ah! Adoro tudo o que tem pitanga.
- E o que não tem também, gordo infame.
- Sai Julieta. Não ouviu a mãe dizer pra você ligar para as amigas de vocês? Né mãe?
- É... vocês dois!!!!

*Na janta com as amigas*

- Quero propor um jogo.
- Mãe, isso não vai dar certo.
- Ah Cris, deixa tua mãe falar, pode ser divertido.
- Ouviu Juju?? Bom, a idéia é a seguinte: como aqui estamos só entre amigas, vamos fazer o jogo da verdade, quem mentir e ser desmascarada toma um ‘martelinho’ dessa maravilha que ganhei.
- Mãe, do jeito que as gurias são, vão mentir de propósito.
- Cala a boca Cris, a gente não vai fazer isso.
- O jogo acaba quando acabar a bebida.
- Feito.

“Jogo já terminou?? Ah sim, todas bêbadas, menos a mãe, ela conseguiu perguntar pra todo mundo se consideravam amigas dela. Hahaha, deve estar desolada. Azar, foi ela quem inventou o jogo.”
“Eiiii, eu não consigo me fixar na conversa e to me sentindo atolada nesse sofá. Mãe, o PA ta comendo as pitangas. Mãe, olha ele. Mãe, cuida. Peraí, eu não consigo falar, minha língua ta amortecida”

- Que porcaria de lugar é esse? Acho que já estive aqui. PA, o que você faz nessa cama... com soro?!?!
- Você também está tomando.
- Como é? Opa. É verdade!!!!
- Mana, enfim concordamos em algo. Entramos em coma alcoólico.
- Ai não. Morri!

23/04/2008

Pra toda regra há uma exceção...

"Cóóóóóliicaaaaaaaa!!!! Quem vai conseguir se concentrar com uma dor dessas?? Ainda mais que vou me encontrar com o Gustavo depois da aula".

"Aii"

"Gustavo, um nome normal! Obrigada meu anjinho dos nomes esquisitos, dessa vez tu foi bem legal comigo. Até to vendo (aii que dor) eu chamar ele de Gu quanto estivermos juntos"

"Dóóóíiiii"

"Meu Gu. Ai ai"

"Ah!, Só podia ser eu, vou ter que mandar mensagem pra mãe. O Guuuuuu, vou ver ele hoje, alegria mode ON."

* Mãe, troquei a bolsa e acabei esquecendo de pegar absorvente, quando passar aqui já traz um pra mim e um dorflex. Bjo*

- MENSAGEM ENVIADA -

"Eu não posso acreditar que eu fiz isso! Não. Fruta que partiu, eu fiz. O que o Gu vai pensar? Que mandei a mensagem errada de propósito só pra ver a reação dele?? Idiota"

"Telefone ta tocando, é ele. Vou correr pra fora da sala de aula. Cris, não precisa tropeçar na mesa... nem na cadeira... nem na mochila do colega... nem no fio do retro-projetor. Quem enfiou esse lixo de lixeira no meu caminho???"

- Alô.

- Oi Julieta

- Oi Gu...stavo

- Problemas?

- É... e.. bem capaz, nenhum. Por?

- Recebi uma mensagem tua.

- Recebeu?? (como se não soubesse. Idiota ao cubo).

- É, você está bem?

- Sim, ótima!

- Pois então...

"Já sei onde vai parar, vou sair por cima nessa história."

- Olha só Gustavo, não to a fim de sair contigo mesmo, você não me merece, é imaturo, espero que não me procure mais.

"Cóóóólica"

- Julie...

- Sem mais Gustavo, preciso voltar pra aula, você está atrapalhando. Passar bem!

Desligo o telefone.

5 minutos depois...

- MENSAGEM RECEBIDA -

* Não sei o que houve, só queria combinar um programinha mais 'light', caseiro, já que imagino estar com dores, mas se preferiu assim, passar bem*.

Juro que fico bem. Alguém tem um revólver aí?

14/04/2008

Não tem cara de tiozinho

- Porra mãe, me acordar cedo no domingo pra ir a almoço beneficente é o fim da várzea, né?
- Julieta Cristina, isso são modos de falar com a tua mãe? Puta que pariu, hein?
Bom, ela mesma respondeu, não preciso dizer mais nada...
- E esse gordo, ele tá indo pra levar o almoço beneficente à falência?Aliás, é em benefício de quem mesmo?
- Sei lá Julieta, é da igreja do bairro.
- Ah tá, em benefício próprio então.
- Caralho Julieta, isso é jeito de falar?
- Ué, achei que depois da conversão pro espiritismo...
- É zen-budismo, sua aculturada. Droga Paulo Afonso, sai logo do banheiro! Julieta, vai limpar o cocô que a Sinfonia fez no corredor! Se ajeitem logo, o Fernando já deve estar chegando. Vocês só me atrasam, dá pra fazer alguma coisa direito? Julieta Cristina, essa zona que você chama de quarto vai ficar assim? Paulo Afonso, sai do banheiro, quero ajeitar meu cabelo! Cadê o lerdo do Fernando que não chega nunca??
Caramba, parece que o zen-budismo deixou minha mãe meio tensa... Tá, pelo menos a Lidi e a Naty também vão nesse almoço falido. Saco, odeio acordar cedo em domingo, odeio comer nesse tipo de lugar, sempre tem alguém fedido do meu lado.
- Manhêêêê, o papi chegou!
- Ô abostado, o Fernando não é teu pai. Aliás, nem eu sei quem é teu pai, seu retirado do lixão. Fala pro Fernando que a gente já vai pro carro, vou avisar a mãe.
- Já escutei, não sou surda como vocês. Julieta, isso é roupa que se use numa igreja?
- Ai mãe, não me torra, tua saia é mais curta que a minha
.- Óbvio que não, eu é que sou mais alta que você. E não enche meu saco, criatura!
''Cegonha querida, não tinha um lugar mais 'normal' pra me largar, tipo assim, um centro de estudos psiquiátricos? Gente doida.
- Seu gordo imbecil, já te falaram pra não peidar num ambiente fechado? Ô mãe, teu filho peidou de novo. E ele comeu pizza de atum com ovo ontem de noite, né?
- Paulo Afonso, cadê os modos? Esqueceu a educação que te dei, merda!
- Calma, bonecrinha, tá tão nervosa hoje...
- Ai Fernando, não se mete também que hoje não tô boa.
Céus...não é TPM porque a mãe menstrua junto comigo e isso foi na semana passada. Então, se a mãe não menstruou semana passada e tá nervosa... e o Paulo Afonso tá com 9 anos e nossa diferença é de 10 anos... Socorro, essa louca tá grávida de novo! Eu vou chorar, juro que vou.
- Tá, chegamos. Vou falar umas coisas e não vou repetir: Julieta, sem gritos histéricos quando encontrar tuas amigas piriguetes, P.A. sem arrotar, peidar e enfiar o dedo no nariz, e não enche a boca de comida. E Fernando, se eu te pegar se engraçando pra alguém eu te defenestro da minha vida, ouviu? Julieta, sem gritar, tá?
- Tá se repetindo, mãe. Pode deixar, não vou gritar, aliás não faço isso desde os 10 anos, sabe...
- Não me retruca que não tô boa!
Medo, muito medo. Cadê minhas amigas? Preciso de carinho... Ai,xiriguidum, o profe novo da academia!
- Cris, te achamos!!
- Lidi e Naty, que alívio encontrar vocês! Viram o gato dos gatos ali na mesa do canto?
- Vimos sim, mas ele tá acompanhado. Tá sentada amiga?
- Ai G-Zuis... Com quem ele tá?
- "Com quem" não, fófis, "contra quem". Sabe a Aline, aquela vadEa láda facul? Segura teu queixo, mas eles chegaram de mãos dadas!
- Tô bege!! Aquela vagabunda que os guris chamam de saco de esperma? Odeio, tomara que ela morra de catapora! Ai não, eles tão vindo pracá! Disfarça...- Oi gurias. Queria apresentar meu namorado pra vocês, o Ju.
- Oi Ju. A gente te chama de professor Marques, não sabia teu nome.
- Na real, meu nome é Juvêncio.
- Ah sim...Murphy, seu filho da puta, sai do meu pé. Já não basta o professor 'depois de lindo" da academia namorar essa... essa... essa... essa imoral, ele ainda se chama Juvêncio? O que mais pode piorar?
- Cris, viu que tristeza a roupa dele??
- Ai nem reparei. Tive um engulho quando escutei o nome, tive que me controlar pra não ter uma síncope, então não vi mais nada.
- Ele tá de papete, bermuda de tiozinho e camiseta pólo. Por dentro da bermuda.
- Papete? Eu até aceito a camiseta por dentro da bermuda, mas papete? Preciso ver isso, eles sentaram na mesa em frente à minha. Depois agente se fala, gurias!
Tá, e a vergonha de sentar nessa mesa? O Fernando come igual um ogro, o decote da mãe é tão grande que tem macarrão no meio dos peitos dela, e o P.A. tá com o nariz escorrendo e comendo com a mão. Alguém por favor me trucida? Deixa eu olhar pro pé do querido... Ai credo, não é papete, é sandália Franciscana!! Socorro. Nããããão, ele tá de pochete!
- E pra beber, moça?
- Cicuta, por favor.

01/04/2008

Conto do fim do sonho

"E eu tenho culpa da incompetência da Sabrina? Já faz tanto tempo que vocês terminaram, a gente tá casado há um tempão e ela não arrumou outro ainda, azar o dela, não o meu!"
"Eu também não tenho culpa se você nunca quer fazer nada no domingo detarde!!"
"Quer saber? Vai pro jogo com a Sabrina, vai encher a cara com a Sabrina,vai pra puta que te pariu com a Sabrina, vou arranjar coisa melhor pra fazerdo que ficar olhando pra tua cara. Some daqui!"
E foi o que ele fez.
Pegou as chaves do carro, vestiu a camisa surrada que ganhou quando o time ainda estava na segunda divisão e...saiu. Muito puto com a falta de discernimento d'Ela, com a falta de compreensão, com o ciúme descabido.

Descabido?
Será que Ela estava tão errada assim? Ele nunca engoliu o término do relacionamento com a Sabrina, que simplesmente falou que tava cansada. Nunca disse o que deu errado, o que deu certo, nunca mais conversaram sobre isso apesar da grande amizade que ficou.

"Oi Sabrina!"

"Oi gatão, pontual como sempre!"

Ele sorriu um pouco tímido, elogios sempre foram seu fraco. Sabrina entrou no carro e foi ocupando todos os espaços: pés no painel, rebaixou o encosto do banco e trocou o cd.

"Tua mulher só escuta essas coisas chatas, né? Vou até ouvir a primeira música..."

Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é prá te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também prá me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

"Afe, que coisa chata!! É só isso que ela escuta?"
"Não quero falar sobre Ela hoje."
"Ué, normalmente é nosso único assunto!"
"Não hoje. Aliás, não quero ir no jogo. Quero ir pra algum lugar tranquilo pra gente conversar e encher a cara."
"Ai saco, Ela brigou contigo de novo, né? Volta lá pra casa, tenho um vinho guardado desde a época que a gente namorava."
E assim fizeram. A casa dela continuava a mesma, com aquele cheiro deincenso que o deixava excitado, aquelas almofadas que por tantas vezes já ficaram por baixo de seus corpos...
"Tá, conta, o que houve dessa vez?"
"Ela continua com ciúmes de ti, é isso. Sabe que eu te acho uma gostosa, sabe que a gente se dava bem na cama, sabe que você ainda tá sozinha...
"Sem nem perceber o que fazia, ele se aproximou tanto de Sabrina que acabaram se beijando. Ele sentia tanta raiva, confusão e tesão que não conseguiu segurar um desejo que sentia há tempos, principalmente quando percebeu que Sabrina também o desejava. Transaram como loucos, sedentos e saudosos, sem pudores ou sequer ressalvas.

Exaustos e saciados, tomaram banho juntos e terminaram de beber o vinho. Ele percebeu a impressionante falta de culpa. Não se sentia mal pela traição, pelo descontrole, por ter desejado outra mulher que já fora sua por tantas outras vezes."Agora sim Ela tem motivos pra ter ciúmes de você."Sabrina começou a gargalhar quase convulsivamente. Entre uma risada e umatentativa de recuperar o fôlego, arrumou as almofadas no chão, sentou-se e olhou fixamente nos olhos d'Ele:
"Sempre te achei, digamos, lentinho pra entender as coisas, mas dessa vez acho que não quer ver, né?"
"Do que você tá falando? O que eu não tô vendo?"
"Fofo, quando terminamos, falei que eu tava cansada, certo? Não foi 'cansada de ti' que eu quis dizer, e sim "cansada dos homens". De vez em quando eu até transo com caras só pra ter um prazer diferente, mas eu gosto mesmo é de mulher!"
Ele, atônito, mal conseguia respirar.
"Sempre pergunto sobre a tua mulher porque acho Ela uma delícia, adoraria que rolasse uma brincadeirinha entre nós três, mas acho que você jamais toparia."
"Mas o que te faz pensar que Ela toparia?"
"Caramba, você virou um bocó mesmo, hein?"
Ele, atordoado, desconcertado e arrependido, levantou-se e saiu, sem se despedir ou mesmo fechar a porta. Ao sair ainda podia ouvir as gargalhadas da Sabrina. Dirigiu a esmo por um tempo depois resolveu ir pra casa de sua mãe.

Ela sempre odiou a Sabrina, saberia como ajudar.

O difícil seria voltar pra casa...